Wikileaks: Eles contam com a “falta de memória” do eleitor

Wikileaks: Eles contam com a “falta de memória” do eleitor

Nesse cable de dezembro de 2009, o assunto principal é o mensalão Arruda e seus desdobramentos para DEM e PSDB. Segundo declarações atribuídas ao então deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), os depudatos envolvidos eram figuras bem estabelecidas no nordeste e o escândalo não teria grande impacto nas eleições federais do ano passado por já ter se tornado “notícia velha”. Declarações atribuídas a ACM Neto (DEM-BA) dão conta de que a maior preocupação do escândalo para o DEM é de que o partido não poderia mais contar com a imagem de boa governança que tentava passar ao eleitor. O deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) teria recorrido até mesmo ao folclore ao dizer que uma chapa formada por Serra e Aécio Neves “seria a bala de prata para superar as preocupações dos eleitores sobre corrupção e boa governança”.

O que fica claro é que os políticos envolvidos em esquemas de corrupção e seus aliados contam com a desinformação (promovida pelo sempre presente auxílio da imprensa golpista) e a “falta de memória” do eleitor.

240721 12/18/2009 19:33 09BRASILIA1429 Embassy Brasilia CONFIDENTIAL

C O N F I D E N T I A L BRASILIA 001429 SIPDIS AMEMBASSY BRASILIA PASS TO AMCONSUL RECIFE E.O. 12958: DECL: 2019/12/18 REF: BRASILIA 1407

TAGS: PGOV, KCOR, BR

Assunto: Brasil: DEM, corrupção e o declínio da direita

1. Resumo: José Arruda, governador do Distrito Federal, foi gravado em vídeo aceitando suborno em novembro e continua a negar as acusações contra ele, o escândalo prejudica o DEM, partido de oposição de centro-direita. O escândalo Arruda ocorre em torno de um sistema de pagamento mensal similar ao esquema do mensalão associado ao PT, partido do presidente Lula. Este caso e outros escândalos recentes prejudicam a estratégia da oposição de aparecer para o eleitorado como campeões da boa governança. O principal partido de oposição, PSDB, até o momento tem pouco envolvimento, mas muitos temem novas acusações. Com a saída de Arruda, a estratégia do DEM é tentar vender a imagem de que o partido reagiu de forma responsável frente ao escândalo, mesmo assim se encontra na mesma posição precária de outros partidos de centro-direita: não ter mensagem clara para distinguir-se sobre a política ou competência administrativa. O PT tem sido pouco afetado pela recente onda de escândalos, os principais partidos de centro-direita na coalizão de Lula consolidam suas alianças com o PT, dificultando ainda mais a capacidade já fraca da centro-direita de desempenhar um papel influente na política brasileira.

Registrado em vídeo
2. O governador Arruda, considerado figura de destaque no DEM e possível candidato a vice-presidente de José Serra, caiu em desgraça quando ele e outros aliados políticos do governo do Distrito Federal (muitos de outros partidos) foram filmados aceitando suborno. A cena cômica – característica de vídeos encontrados no YouTube – inclui representantes eleitos colocando envelopes de dinheiro dentro de bolsos, meias e blusões, provavelmente vai ficar na consciência do público por algum tempo. Apesar das evidências contra ele, Arruda insiste em permanecer no cargo, negar as acusações e concorrer a reeleição. O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e outros membros do partido disseram a Poloff (com um misto de raiva e frustração) que Arruda provavelmente permanecerá no cargo durante as eleições de outubro de 2010, embora haja diversas evidências contra ele e uma ação de impeachment. No dia 10 de dezembro, Arruda deixou o DEM, antecipando-se a uma votação interna do partido no dia seguinte em que teria sido expulso.

3. O escândalo Arruda envolve pagamentos mensais feitos pelas empresas que atuam no sistema de metrô de Brasília e outros grandes projetos de construção. O escândalo atual lembra o mensalão, que prejudicou o PT no final do primeiro mandato de Lula e criou dificuldades na campanha de reeleição em 2006. (O escândalo atual está sendo chamado de “mensalão Arruda”.) Dois escândalos de pagamentos mensais surgiram na última semana; em um deles, a Polícia Federal anunciou que em breve abrirá um processo contra a construtora Camargo Corrêa, alegando que a construtora pagou cerca de 30 milhões de reais (aproximadamente 17 milhões de dólares) a vários políticos nos últimos anos. Os relatórios iniciais liberados pela Polícia Federal listam políticos da oposição e aliados como beneficiários, incluindo pesos pesados como o presidente da câmara dos deputados, Michel Temer (PMDB-SP). Contratos federais e estaduais, em geral, liberam recursos mensalmente para as empresas contratantes com regras fracas para detalhar e justificar as despesas, tornando mais fácil para o mensalão se tornar o esquema de corrupção favorito no Brasil.

Efeitos para o DEM
4. Para o DEM, que tem a terceira maior bancada no senado e na câmara, o mensalão Arruda representa um duro golpe para um partido que já estava perdendo apoio. O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), líder do partido na câmara, admitiu que o escândalo irá prejudicar o partido nas eleições. Mas Caiado argumentou que ao menos houve iniciativa interna de expulsar arruda, ao contrário do PT que não tomou atitudes contra seus membros envolvidos no mensalão. Embora seja verdade, é difícil que o partido tenha algum crédito junto a opinião pública. Um assessor do partido admitiu para nós que o DEM não cogitava a expulsão de Arruda antes de ele ter deixado o partido, principalmente porque vários líderes políticos do DEM pararam a ação diante das preocupações sobre ter seus laços com Arruda expostos. O mensalão Arruda pode não ter grande impacto para o DEM nas eleições federais de 2010, segundo o deputado Lorenzoni, porque muitas de suas figuras principais estão bem estabelecidas em suas bases rurais e no nordeste. Notícias sobre corrupção em Brasília terão impacto limitado, especialmente porque terão se tornado notícia velha até outubro. Mas a vaga de candidato a vice-presidente que o DEM manteve nas duas últimas eleições está praticamente perdida. Também será difícil para o maior partido de centro-direita do país ganhar nos governos estaduais. Talvez o maior problema para o DEM causado pelo escândalo seja, como disse o deputado ACM Neto (DEM-BA) a Poloff, que o partido planejava ter uma imagem de boa governança e agora “não tem uma mensagem que o distingue dos demais”.

Efeitos na oposição e no PSDB
5. Ainda não está claro de que forma o escândalo atual pode afetar o PSDB e seu candidato a presidente, José Serra. Dois dos deputados pegos no esquema do mensalão Arruda são do PSDB, e Arruda tem aliados públicos entre os membros do PSDB, um grande desgosto para o resto do partido. A maior preocupação com o mensalão Arruda é que três das empresas envolvidas no esquema do Distrito Federal também têm atuação em outros estados com governadores do PSDB, incluindo São Paulo (Serra) e Minas Gerais (Aécio Neves). O senador Gim Argello (PTB-DF), vice-líder no senado da coalizão do governo Lula, disse a Poloff semana passada que acredita que essas empresas não estejam envolvidas em práticas semelhantes fora de Brasília e que o escândalo não deve afetar Serra ou Neves. De acordo com Argello, que também é investidor do ramo imobiliário e tem seus interesses, a corrupção de Arruda é conhecida localmente e criou um ambiente em que o suborno era necessário.

6. O deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) manifestou confiança na capacidade do seu partido para enfrentar o escândalo de Arruda e ainda viu os benefícios para o PSDB às expensas do DEM, mas expressou preocupação de que mais notícias sobre a corrupção estavam chegando e que o PSDB teria que lutar muito para polir sua imagem de partido de um bom governo. Ele lembrou o caso do senador Eduardo Azeredo (MG), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Comitê de Defesa, agora sob investigação por um esquema tipo mensalão durante sua campanha para governador em 1998. Araújo caracterizou o caso de Azeredo como “fumaça sem fogo”, mas admitiu que provavelmente haverá um monte de fumaça para o PSDB para enfrentar nos próximos meses. Ele afirmou ainda, como outros contatos no PSDB recentemente, que uma chapa formada somente pelo PSDB, Serra e Aécio Neves, seria a bala de prata para superar as preocupações dos eleitores sobre corrupção e boa governança.

Para onde vai a centro-direita?
7. O impacto imediato do escândalo envolvendo Arruda parece bastante óbvio: enfraquece os partidos de centro-direita e prejudica a habilidade da oposição de transmitir uma imagem de que governa de forma mais eficiente que o PT e seu aliado PMDB. De forma mais ampla, o escândalo limita as possibilidades de articulação política da centro-direita tanto junto à oposição quanto junto à ala conservadora da articulação governista. Partidos de centro-direita da coalizão governista – incluindo o PP, PR, PTB, PDT e parte do PMDB – afastaram-se da sua independência anterior sobre questões-chave e tornaram-se cada vez mais submissos à agenda de Lula no Congresso. Apenas um senador desse bloco não votou favoravelmente a adesão da Venezuela ao Mercosul, a votação sobre a legislação de exploração do petróleo pré-sal está prevista para produzir um número similar. Senadores desses partidos, como Sérgio Zambiasi (PTB-RS), frequentemente nos dizem que têm preocupações sobre alguns votos, mas não há nenhuma indicação de qualquer rebelião. Afinal, como um analista político nos disse, os líderes de muitos desses partidos têm suas preocupações sobre corrupção e estão mais seguros dentro da coalizão de Lula do que fora dela. Como o deputado Neto disse a Poloff, “no Brasil hoje, um partido só pode ser genuinamente conservador economicamente se não tiver escândalos”.

Mais cables sobre as eleições de 2010 publicados pela blogosfera:

Os textos originais dos telegramas (em inglês) está disponível neste link: Pacote 5, eleições 2010.

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2016-10-05T00:12:38+00:00 março 2011|Aleatório|

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