Wikileaks: Telegrama sobre o 40º aniversário do golpe militar

Wikileaks: Telegrama sobre o 40º aniversário do golpe militar

Conceição Oliveira (@maria_fro) publicou em seu blog o texto completo em inglês de dois telegramas enviados aos “blogueiros sujos” pelo Wikileaks: Cablegate: Anistia, Ditadura Militar, Comissão da Verdade e mais. Traduzi um deles, sobre o 40º aniversário do golpe militar.

UNCLAS SECTION 01 OF 02 BRASILIA 000784 SIPDIS SENSITIVE E.O. 12958: N/A TAGS: PGOV, PINR, PREL, SOCI, BR, Domestic Politics

ASSUNTO: Brasil: quadragésimo aniversário do golpe militar
REF: BUENOS AIRES 961

1. Resumo: Ao contrário do contratempo civil-militar em torno do 28 º aniversário do golpe militar na Argentina (reftel), o Brasil marcou o 40 º aniversário (31 de março) do seu golpe de uma forma mais prudente. A transição para uma democracia plena durante as últimas duas décadas parece um fato tido como certo em grande parte da cobertura, a mídia brasileira se concentrou em resolver casos de direitos humanos, reacendendo as condições que levaram à ação militar, e opinou sobre outros efeitos de longo prazo do regime militar que durou dezenove anos. Enquanto declina de forma contínua, o regime militar ainda lança algumas sombras sobre as relações Brasil-EUA.

Quarenta anos atrás

2. A mídia brasileira detalhou as circunstâncias e o legado do golpe militar de 1964 que depôs o presidente Goulart e deu início a duas décadas de “generais-presidentes”. Embora lamentando as violações dos direitos humanos e civis, os equivocados projetos faraônicos na Amazônia e, finalmente, as políticas econômicas fracassadas, alguns analistas atribuem aos presidentes militares a modernização do Brasil, e, ocasionalmente, enfrentar os Estados Unidos. Isso “por outro lado” recorda comentários do então candidato Lula da Silva em 2002, que creditou ao mesmo governo militar que o prendeu um planejamento estratégico que beneficiou o país. Outros legados dessa época têm recebido menos atenção da mídia. Estes incluem a detalhada Constituição de 1988 – uma reação exagerada à ditadura que abalou a efetiva governança, detalhando minuciosamente uma ampla gama de estados e os direitos dos cidadãos – e a desordenada influência do partido de oposição aprovado pelo regime, o PMDB, que evoluiu para uma máquina de clientelismo que ainda frustra presidentes hoje.

Os militares de hoje

3. Não surpreendentemente, os militares brasileiros fazem parte talvez da única instituição brasileira que mais mudou desde a época da ditadura. A experiência dos militares no governo foi em grande medida controversa e frustrante, e os soldados de hoje não querem participar na vida política. As forças armadas brasileiras estão agora firmemente sob a autoridade civil, e de bom grado desempenham um papel menor nas decisões nacionais. Embora a Constituição do Brasil confira aos militares um papel de ordem interna em crise, os agentes já não se vêem como baluarte da nação contra políticos incompetentes. Em vez disso, eles estão muito focados no profissionalismo, visando proteger as fronteiras nacionais, preparar-se para missões de paz e prestar assistência às populações remotas. A mudança é amplamente percebida e pesquisas de opinião pública mostram consistentemente os militares entre as instituições mais confiáveis do país, embora o seu financiamento tenha caído ao longo dos anos.

4. Há ainda algum resíduo negativo. Existe um sentimento entre alguns oficiais mais velhos e reformados que os passos dos militares para mover o país de volta à democracia não são apreciados hoje em dia. E ainda há um grau sutil de rancor para com o governo dos EUA, devido a um sentimento entre alguns oficiais mais velhos que os EUA mudaram abruptamente de apoio ao governo militar para condená-lo por violações dos direitos humanos. Além disso, a relutância dos militares brasileiros a assumir algumas missões antidrogas e controle da criminalidade, que poderia envolver violento engajamento com civis, é reforçada pela persistência de dúvidas sobre os desaparecimentos não resolvidos de insurgentes em 1970.

Legado econômico

5. O aspecto da ditadura mais alardeado como positivo foi o suposto “milagre econômico”, comumente atribuído à direção do desenvolvimento industrial do Estado por equipes não-ideológicas de tecnocratas qualificados. Crescimento do PIB do Brasil foi considerado o mais alto do mundo a partir da década de 1960 até ser interrompido pela crise mundial do petróleo na década de 1970. A ditadura completou projetos monstro de energia e de infra-estrutura. Os generais também alimentaram e protegeram (com reservas de mercado rígidas) algumas das indústrias pesadas (automóveis, por exemplo) e a produção “estratégica”, sobretudo a informática. (Ironicamente, foi em parte a ênfase na proteção das indústrias pesadas que fez das greves do movimento trabalhista em 1970 plataformas eficazes para a crescente oposição democrática.)

6. Ao mesmo tempo, tornou-se reconhecido que o “milagre” fez pouco para diminuir a maldição histórica do Brasil de pobreza e disparidades de renda – a riqueza acumulada principalmente pela elite e o lento crescimento de uma classe média no sul também trouxe benefícios para os trabalhadores industriais, mas os pobres do país tornaram-se mais pobres. Mesmo as estatísticas sobre as quais o regime baseou suas alegações de crescimento global tornaram-se discutíveis. No contexto da política econômica oficial, a ditadura do Brasil deixou poucas marcas discerníveis. Todos em ambos os setores público e privado aqui reconhecem que o estado não pode mais dispor dos recursos para iniciar um projeto de desenvolvimento de base ampla.

Algumas repercussões remanescentes para os interesses dos EUA

7. Alguns jornalistas e acadêmicos retratam os EUA como incentivadores dos golpistas, ou pelo menos de ter conhecimento e planejamento. Algumas das publicações mais sensacionalistas desenham trabalhados paralelos entre 1964 e o nível de influência dos EUA no Brasil hoje. Mas outros jornalistas brasileiros observam que o governo dos EUA tem proporcionado maior acesso aos documentos e gravações de conversas oficiais daquela época do que os disponíveis nos arquivos brasileiros, e a edição de 31 de março do “Estado de São Paulo” apresentou um ensaio do ex-embaixador dos EUA, Lincoln Gordon (1961-65) fazendo acusações de conluio do governo dos EUA com os autores do golpe. Observadores mais informados concluíram que a liderança política civil brasileira daquela época tinha importante medida de responsabilidade, e que os generais e almirantes que montaram o golpe estavam preparados para avançar, independentemente dos sinais dos EUA.

8. A revista semanal VEJA salientou que um importante legado do regime militar é o estado do programa nuclear do Brasil. Tentativas falhas da ditadura para fabricar uma arma nuclear e sua cooperação com o Iraque e outros ainda tão o tom nas decisões políticas brasileiras. A militarização daquele programa contribuiu para que o Brasil não assinasse o Tratado de Não Proliferação Nuclear até 1998 e por um tempo retardou a evolução do sucesso no Brasil de uma história regional de não-proliferação.

9. O golpe também, indiretamente, contribuiu para o prestígio que Fidel Castro ainda tem entre a esquerda no Brasil. O flerte de João Goulart com Fidel e Che irritou os militares brasileiros mesmo antes do golpe. O apoio de Fidel Castro para os insurgentes brasileiros do início dos anos 1970 e para os movimentos políticos da oposição e sindicatos ainda encarece-lhe os principais membros do atual governo, alguns dos quais buscaram refúgio em Cuba durante o período militar, incluindo o Ministro da Casa Civil José Dirceu.

Água debaixo da ponte

10. Comentário: Duas das três pontes de Brasília foram nomeadas após presidentes militares. A terceira e mais nova comemora um presidente civil popular que perdeu seus direitos políticos durante o regime militar e cuja morte alguns atribuem a culpa a ditadura. No Brasil, cultura, economia e vida política ainda contêm muitas ironias desse tipo (por exemplo, a EMBRAER, de propriedade privada e gigante brasileira da aviação, começou como um departamento estatal para ex-oficiais da Força Aérea em 1969; o Ministro das Relações Exteriores Celso Amorim e seu vice trabalharam para a paraestatal Embrafilme durante a ditadura). Os aspectos mais duros da ditadura e o longo retorno a democracia não foram esquecidos. No entanto, 40 anos após o golpe e 19 desde o retorno ao regime civil, o período militar tem uma relevância cada vez menor para uma sociedade progressista, em que um terço da população nasceu após a restauração da democracia. Instituições civis e políticas do Brasil são agora plenamente democráticas, o exército é uma respeitada força profissional (ainda que subfinanciado), e algumas das figuras da oposição aos militares estão agora no comando do país.

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2011-02-22T02:08:56+00:00 fevereiro 2011|Aleatório|

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