Trabalho Interno, a lógica da crise e regulação financeira

Trabalho Interno, a lógica da crise e regulação financeira

por Sérgio Telles

A lógica da especulação é bem simples: mercado previsível é impossível se ter grandes ganhos. Portanto, nessa sucessão de “erros”, foi o segredo pra essa gente explodir seus ganhos: botavam “dicas” pra um lado, mas faziam apostas invertidas. Propositalmente criaram mecanismos que tornariam o sistema instável e capaz de gerar enormes crises, momento no qual é possível se criar grandes instabilidades – existe gente que ganha rios de dinheiro também quando há grandes quedas, é possível se operar “vendido” aonde se ganha em grandes variações para baixo.

Gosto sempre de fazer uma comparação ilustrativa: o mercado financeiro, diferente de um circuito elétrico, não possui equações de “soma zero”, ou seja, a “corrente” financeira que determina o equilíbrio dos preços não tem que dar zero, é apenas um equilíbrio de momento e a variação de liquidez e de estabilidade podem dar grande volatilidade no preço de uma ação ou produto qualquer, mesmo que o interesse global desse mesmo bem tenha reduzido ou crescido bruscamente – enfim, é possível você com a manipulação coletiva, influenciar esse preços caso você tenha poder de mercado, existem diversas restrições mas quem possui uma rede de poder sofisticada acaba atuando nas duas pontas, e fazendo MUITO dinheiro com extrema facilidade.

Pra dar valores reais pra questão do equilíbrio de preços, a cotação do dólar no Brasil é um caso bastante simples de enxergar isso. Na última crise que fez o dólar se apreciar, no final de 2008, a moeda rapidamente saiu de R$ 1,55 para 2,50, mas o mercado estava escasso de compradores e vendedores, o movimento era muito pequeno, por ausência de quem vendesse a moeda, os compradores foram empurrando a cotação pra cima indefinidamente, até o BC resolver atuar e voltar a dar liquidez ao mercado. No outro sentido, pra baixo, bilhões e bilhões de dólares entram no Brasil e o BC “enxuga” o mercado, segurando o equilíbrio da cotação, segurando ela pra variar no máximo R$ 0,01 por dia, quando muito. Se a determinação de um preço fosse uma equação de “soma zero”, o esforço de empurrar a cotação pra baixo teria que ser o mesmo pra empurrar pra cima, mas não é. O BC como atua para que a cotação não fuja do seu controle, garantindo liquidez para os dólares que entram e quando o movimento é de subida, permitindo que essa ocorra de maneira mais livre, pois todos sabemos que o real encontra-se apreciado em relação ao dólar.

A questão ética desses mercados que movimentam trilhões de dólares e esses recursos não servem pra se produzir nada, apenas ficam circulando, gerando bolhas aonde todos ficam ricos, ou grandes depressões de preços aonde alguns poucos falem e outros também ficam ricos, pois apostaram nessa queda atuando “vendidos”. Enfim, a finalidade original dos mercados secundários, que eram para aumentar a facilidade de captação das empresas para fazer grandes investimentos produtivos (o dinheiro fica menos “preso” tendo a opção de vender uma ação no mercado secundário, esse é a grande utilidade da bolsa de valores, ser uma atraente forma de garantir aos investidores maior flexibilidade na alocação de seus recursos), só que ao longo do tempo tornou-se, fruto dessa desregulamentação praticada nos EUA e copiada em alguns outros lugares (aqui no Brasil bem menos, por isso nosso sistema bancário resistiu e se fortaleceu em escala mundial), uma grande roda de cassino planejada exatamente por quem tornou-se bilionário e cada dia fica mais, lembrando que nos EUA a cultura de se fazer poupança no mercado de ações é bastante consolidada, um tranco como o de 2008 que faz o preço das ações despencarem 60%, é a poupança de toda uma vida de muitas pessoas que foi pro ralo junto, por isso que houve uma depressão geral na economia americana, muitos deles consomem riquezas nesses momentos e se são obrigados a vender as ações em preços irrisórios, tornam-se muito menos capazes de consumir do que antes.

O que é necessário é o lógico, temos sistemas de informação tão poderosos, o sistema financeiro precisa de regulamentação e precisa se auto-financiar, não pode ter esse tipo de “socialização de prejuízos” escandaloso que já rolou aqui no Brasil no tempo do PROER, rolou nos EUA nessa crise de 2008 e rola mundo afora toda vez que os mauricinhos do mercado financeiro conseguem criar um jeito que a coisa desanda tanto que há a necessidade de socorro governamental para que a coisa não se torne uma crise sistêmica e paralize o país inteiro, como aconteceu na Islândia. O Brasil, que sempre levantou a desconfiança de todo o mundo, foi aonde a coisa foi mais tranquila, exatamente porque aqui o sistema financeiro é bem regulado e é proibido de fazer uma série de barbaridades que aconteceram mundo afora. E que continue regulado assim, que se criem mecanismos para que o sistema financeiro seja a prova de crises e seja auto-financiável em caso de risco sistêmico.

Sérgio Telles é economista e escreve no blog stelles.blogspot.com

2011-08-01T10:18:56+00:00 agosto 2011|Opinião|

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